ARTELOGIE IX
(JUIN 2016)
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Entrevista com Heridan Guterres

Heridan Guterres

Heridan Guterres
Doutorado em andamento em Informática na Educação (UGRGS). É Mestre em Saúde e Meio Ambiente (UFMA), graduada em Letras (UEMA). Realiza trabalhos com interfaces entre a Arte, a Linguística e a Antropologia. Sua vasta experiência docente tem permitido atuar nas áreas de educação voltando-se, especialmente, para populações vulneráveis (carcerárias, por exemplo) e quilombolas, trabalhando com o projeto Educacional “O boi contou” (Guimarães, MA).

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Artelogie convidou a professora Heridan Guterres a responder algumas perguntas sobre o Bumba meu boi do Maranhão, aprovado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histório e Artístico Nacional (Iphan) a partir de agosto de 2011, como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Heridan aborda o histórico da festa no Brasil, os estilos — denominados de sotaques — e a relação da festa com a religiosidade popular


Pour citer l'article:

Heridan Guterres - « Entrevista com Heridan Guterres », in Entretiens .
(c) Artelogie, n° 4, Janvier 2013.

URL: http://cral.in2p3.fr/artelogie/spip.php?article186

Projeto da Associação Cultural e Folclórica Vimarense, coordenado por Ana Stela Cunha, com colaboração de Lilian Abram Santos, Igor Sacaramuzzi, Heridan Guterres, Thiago Novaes, Peter Anton, além de contar com a parceria da prefeitura local e dos professores das escolas rurais. O trabalho é desenvolvido com as populações de 20 quilombos do Município de Guimaraes (MA), coletando e difundindo a memória artística/cultural dos afrodescendentes, no que se pode denominar de patrimônio imaterial.http://boideguimaraes.wordpress.com…

É responsável nos últimos anos por diversas programações voltadas para a questão racial nas comunidades onde atua enquanto educadora. Foi roteirista do documentário “João da mata falado” (Etnodoc) e faz pesquisas sobre a religião de matriz negro africana na baixada ocidental maranhense, nominadamente os “pajés”. Brincante do Bumba-meu-boi da “Fé em Deus” (São Luís), uma das brincadeiras de bumba boi de zabumba mais tradicionais do Maranhão, tem a experiência de estar dos dois lados da festa, seja atuando como “vaqueira”, seja como investigadora desta manifestação cultural que remete a uma ancestralidade ibérica e africana.

Heridan Guterres.Vaqueira do Bumba meu boi da Fé em Deus.São Luiz (Maranhão, Brasil).Acervo da entrevistada.

Idealizadora e coordenadora do “Curso de Confeccção e bordado em miçangas e canutilhos de indumentárias do bumba meu boi”, no bairro da Fé em Deus, além do Curso de Pintura em Cerâmica desenvolvido em uma escola da rede pública do bairro do Monte Castelo, curso este que atende a crianças e adolescentes em situação de risco social. Coordenadora do “Ponto de Leitura Terezinha Jansen”, na sede do Boi da Fé em Deus.Compositora, escritora e filha de um brincante de Bumba meu boi de zabumba, cresceu em contato com as toadas de bumba meu boi, cantadas pelo pai, assim como da literatura de cordel, compondo seus primeiros cordeis ainda na adolescência. Participação em livros voltados para a educação e cultura, tais como : “Construindo Quilombos, desconstruindo mitos : a educação formal e a realidade quilombola no Brasil” e “Boi de Zabumba é nossa tradição”. Uma das autoras do livreto bilíngue “A Estética do Terreiro”, além de contos de literatura infanto-juvenil e de cordel.

Entrevista

Artelogie : Em que se constitui o Bumba meu boi é como é conhecido em outras partes do Brasil ?

Heridan Guterres : O Bumba meu boi é uma manifestação popular que chegou ao Brasil através dos Jesuítas, mas que com o tempo se modificou, incorporando personagens e elementos regionais. Diz-se que o bumba boi surgiu na Região Nordeste do Brasil com o ciclo do gado, de onde se espalhou para outras regiões do país.

No Nordeste ele é conhecido como Bumba meu boi, bumba-boi, reizado, festa de Reis, boi Calemba, Cavalo Marinho, na Região Norte é conhecido como boi Bumbá, na Sudeste é conhecido como Boi Pintadinho, Bumba de Reis ou Reis de Boi, na Região Sul como Boi de Mamão. 

Artelogie : O que são sotaques do Bumba e algumas justificativas para essa diversidade ?

Heridan Guterres : O bumba meu boi quando chegou ao Maranhão se tornou a maior manifestação popular do estado, por conta disso a gente do Maranhão se apropriou da brincadeira que com o passar do tempo foi se adaptando às realidades de cada região do estado, com isso foram surgindo os primeiros grupos e depois disso se multiplicou de forma espantosa. Com isso teve-se a diversidade e nessa diversidade podia se observar algumas semelhanças entre algumas formas de se apresentar a brincadeira. Sentiu-se, dessa forma, a necessidade de criar categorias que viessem para organizar essa variedade que se observava no estado. Tais categorias foram chamadas de sotaques. Os sotaques levam em consideração o ritmo e além do ritmo pode-se observar visivelmente diferenças nas indumentárias e nos instrumentos usados em cada um dos sotaques. No Maranhão, são cinco os sotaques mais conhecidos : Ilha ou Matraca, Guimarães ou Zabumba, Orquestra, Baixada ou Pindaré e o Costa de Mão, conhecido também, como sotaque de Cururupu. Esses sotaques tentam organizar a diversidade do bumba meu boi, mas sabe-se que mesmo assim, existem grupos que não se encaixam em nenhum desses sotaques. Tais grupos seguem a própria criatividade e espontaneidade. Os sotaques possuem uma relação geográfica com o local de onde são oriundos. O sotaque da Matraca em razão de ser oriundo da Ilha de São Luís é conhecido como Sotaque da Ilha, enquanto que o Sotaque de Zabumba por ser originário do Município de Guimarães, cidade que fica próxima à costa oeste do estado é também chamado de Sotaque de Guimarães. Possui um ritmo mais rápido e agressivo na pegada, bem característico das batidas, razão porque é reconhecido como o mais tradicional e com viés africano.

O sotaque de Orquestra surgiu na região do Munin, a qual fica a mais ou menos uns 140km de São Luís, e teve seu início a partir de uma fusão de um grupo de zabumba que estava voltando de uma apresentação e se encontrou com um grupo de músicos que tocavam instrumentos de sopro e cordas. Ao se integrarem, formaram o Sotaque de Orquestra. É característico por ter em sua orquestra instrumentos de sopro como saxofone e trompete.

O sotaque da Baixada surgiu na baixada maranhense e também é conhecido como Sotaque de Pindaré, por conta do Boi de Pindaré que por anos foi o maior e mais conhecido nesse sotaque. Este sotaque tem um ritmo mais cadenciado, utilizando pandeiros que são batidos em baixo, matracas. Por fim, o Sotaque de Costa de Mão ou Sotaque de Cururupu é oriundo da cidade de Cururupu. Surgiu pelas mãos dos escravos que certa vez queriam brincar bumba-boi e o dono da fazenda disse que eles poderiam, mas que isso não atrapalhasse o trabalho no dia seguinte e como eles estavam com as mãos calejadas do dia de trabalho o fazendeiro os desafiou a prosseguir a brincadeira, foi então que eles decidiram bater os pandeiros com a costa das mãos e assim surgiu esse sotaque.

Heridan Guterres ao centro, brincando no Bumba meu boi da Fé em Deus.Acervo da entrevistada.

 Artelogie : Que elementos culturais reúne e a que aspectos históricos remete ?

Heridan Guterres : O bumba meu boi tem variados elementos, que variam de acordo com o sotaque : índios, índias e/ou tapuios (as), rajados ou vaqueiros de fita, vaqueiros e vaqueiros campeadores, caboclos de pena, burrinha, e o boi propriamente dito, bem como a percussão que dá o ritmo à brincadeira. Tais elementos remetem à influência e contribuição dos três povos responsáveis pela formação do povo brasileiro : o negro, o índio e o branco. Possui ainda, um viés com o Ciclo do Gado no período da colonização.

Artelogie : Por que se diz que no Maranhão o Bumba tem significado especial e se constitui em uma forma de oração ?

Heridan Guterres : No Maranhão, o ritual do Bumba meu boi possui um especial significado em razão de praticamente o ano inteiro povoar a vida dos maranhenses. A partir do “Sábado de Aleluia”, após a Quaresma Cristã, se iniciam os ensaios que vão até o mês de junho, onde são comemorados os santos católicos : Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal. Antes de iniciar o período de apresentação dos grupos, cada boi é batizado ; é o momento em que tanto o boi como os brincantes recebem uma bênção ; é um ritual necessário, pois se acredita que todos ficam protegidos para a temporada. Esse ritual mostra o quão forte é o sincretismo religioso no bumba boi ; o boi é batizado pode ocorrer nos barracões de cada grupo e também em uma igreja ou terreiro ; a benção é um momento muito emocionante do ritual, é onde se reza a ladainha, se asperge água benta sobre o boi e os brincantes. A religiosidade é evidenciada em algumas das toadas e como o ciclo no Maranhão é no mês de junho, esse período é chamado de festa Junina ou simplesmente São João, devido aos santos de junho que são reverenciados nesse período. O brincar Bumba boi termina sendo um ato de devoção, onde você faz através da dança e das toadas reverência aos santos de junho.

Batizado do Boi.Acervo da entrevistada.

Batuque - Orquestra

 

Artelogie : Professora Heridan, algumas outras considerações sobre o Bumba meu boi ?

Heridan Guterres : Cabe considerar que o Boi de Terreiro não se apresenta nos arraiais, mas somente nos terreiros onde é praticada a pajelança ou o Tambor de Mina, pois possui um cunho muito religioso, ou seja, uma entidade da religião é devota de um santo (geralmente São João) e pede como obrigação a feitura do boi, que nasce e morre no terreiro, em um único dia. Tal como o boi que se apresenta nos arraiais ; possui padrinho e madrinha e também, o mourão, que é um adereço, espécie de árvore enfeitada onde o boi é amarrado para morrer. Contam que é bom que se guarde o pedaço do mourão, que serve para fazer remédios. Nem sempre os bois morrem, podendo ser soltos pelas madrinhas, que os livram da morte.

Balhantes – rajados.Acervo da entrevistada.

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