ARTELOGIE IX
(JUIN 2016)
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O futebol como alegoria antropofágica : modernismo, música popular e a descoberta da "brasilidade" esportiva

  • Dossier thématique :
    Brésil, questions sur le modernisme
Bernardo Borges Buarque de Hollanda

Historiador CPDOC – Fundação Getúlio Vargas / Rio de Janeiroe - Mail : bernardobuarque@gmail.com

Palavras-chaves :

Modernismo, Futebol, Regionalismo, Música Popular, Cultura Brasileira, Identidade Nacional, Gilberto Freyre

Resumo :

O ensaio traça um painel do discurso modernista acerca do futebol brasileiro nos anos de 1920, 1930 e 1940. Ainda que de forma incidental, é possível coligir referências sobre o fenômeno futebolístico no Brasil entre os autores do modernismo de São Paulo e do regionalismo nordestino. Com base em poemas, crônicas e ensaios, procura-se mostrar como, a partir de 1940, o discurso modernista entronizou o futebol em seu projeto de construção de uma cultura e de uma identidade brasileira. Para isto, busca-se evidenciar de que maneira o discurso da brasilidade modernista, já presente na música popular e no folclore ao longo da década de 1920, outorgou ao futebol a sua legitimidade no âmbito cultural e artístico nos anos de 1940.


Pour citer l'article:

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, « O futebol como alegoria antropofágica : modernismo, música popular e a descoberta da "brasilidade" esportiva », in Dossier thématique :
Brésil, questions sur le modernisme
.
(c) Artelogie, n° 1, Septembre 2011.

URL: http://cral.in2p3.fr/artelogie/spip.php?article65

Apresentação

Ao longo do século XX, a música popular e o futebol foram-se tornando dois grandes ícones da identidade brasileira. A cristalização dessa imagem do país penetrou o senso-comum e tem nos dias de hoje alcance internacional. Os dois símbolos da nacionalidade incidem de forma direta na maioria da população de modo a elevar sua autoestima. O prestígio da música popular e os feitos recorrentes do futebol brasileiro nas Copas do Mundo atuam como uma espécie de contrabalança para o amplo descrédito das instituições políticas, dos padrões de conduta moral e das perspectivas de ascensão econômica na sociedade brasileira.

A maneira pela qual cada um desses dois símbolos foi erigido e incorporado à idéia da brasilidade ocorreu de forma peculiar e em momentos distintos. No âmbito do modernismo, embora em algumas ocasiões eles se toquem e entrecruzem, a música e o futebol foram concebidos inicialmente de forma oposta.O presente artigo reconstitui a trajetória de cada um desses fenômenos culturais. De início, enfatizam-se as distâncias entre a música e os esportes, seguindo a ótica dos autores ligados à Semana de Arte Moderna, em particular o grupo ligado à visão do manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924), quando o polo da tradição une-se ao da modernidade dos vanguardistas de 22. Em seguida, descreve-se a recepção dos modernistas de São Paulo ao fenômeno futebolístico nos anos 20, visto como fato cotidiano, ligado à vida moderna do ambiente urbano.

Durante os anos 1930, com a criação do torneio mundial de futebol, a escala esportiva vai perpassar a identidade nacional. A nacionalidade associada ao esporte atinge seu clímax na Copa de 1938, quando a Seleção Brasileira é apresentada ao mundo como uma equipe heterogênea do ponto de vista social e étnico, capaz de mesclar jogadores de origem negra e branca. Na década seguinte, o futebol é por fim incorporado ao discurso da brasilidade, graças a Gilberto Freyre e a alguns autores regionalistas, radicados no Rio de Janeiro. Estes identificam na técnica musical e corporal do jogador negro a raiz da legitimidade do futebol no âmbito cultural e folclórico.

Modernismo, música popular e mundo rural

O interesse dos artistas e escritores pela música e por suas manifestações folclóricas remonta ao romantismo oitocentista e, em especial, ao último quartel do século XIX. A figura de Sílvio Romero pode ser considerada emblemática entre a geração de 1870, que procura salvaguardar as poesias populares, os contos tradicionais e a literatura oral dispersa nas regiões mais recônditas do país. De maneira similar ao que sucedia na Europa, como mostra o historiador inglês Peter Burke em A cultura popular na Idade Moderna, a coleta do repertório musical era uma incumbência do homem letrado à época. A preservação do material folclórico, visto como peça de antiquário, para falar com o sociólogo Renato Ortiz, fazia parte de um ideal de resgate dos bens culturais que manteriam intactos os traços da nacionalidade.

Nas primeiras décadas do século XX, a atividade missionária em torno da música continua em vigor, embora a partir de novos personagens e em diferentes contextos. Já Graça Aranha, em seu ensaio Espírito moderno, assinala a música popular como o elemento unificador do caráter nacional brasileiro. A influência do romantismo alemão fazia com que o autor de Canaã se voltasse para a idéia da existência de uma alma do povo. A singularidade de cada nação seria encontrada em uma manifestação cultural específica, que reuniria os diversos aspectos da tradição popular. No caso brasileiro, Graça Aranha percebia na música a expressão genuína e a legítima representante da nacionalidade.Nos decênios de 1920 e 1930, o modernismo despontaria com redobrado entusiasmo pelo folclore e pela música popular.

Mário de Andrade, Renato Almeida e Heitor Villa-Lobos, entre outros, atualizavam o nacionalismo romântico de pesquisa e conservação do material rítmico, melódico e poético da música brasileira. O projeto de rastreamento das canções anônimas dispersas no interior do país possuía um viés não só de incursão etnográfica como de alcance étnico. Nas viagens feitas por esses intelectuais, seja a Mato Grosso, à Amazônia ou às pequenas cidades do Nordeste, destacava-se o interesse pelas manifestações indígenas e negras. Até então rejeitadas ou consideradas residuais em face da civilização européia, as tradições indígenas e africanas passam a ser valorizadas, na medida em que as suas contribuições culturais seriam pilares fundamentais na afirmação da identidade nacional.

A atenção dos escritores modernistas nos decênios de 1920 e 1930 não estaria apenas voltada para as regiões rurais ou para os rincões ignotos do vasto interior do país. A área urbana com os seus grandes contingentes de população negra, com o seu subúrbio de feição ainda rural e com os seus bairros que viviam à margem dos surtos de modernização excludente também era alvo de interesse. São Paulo, Recife e o Rio de Janeiro representavam os principais polos urbanos de atração do modernismo.

Em relação à cidade do Rio de Janeiro, o antropólogo Hermano Viana narrou um encontro ocorrido em 1926 entre Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Prudente de Morais Neto com Pixinguinha, Donga e Patrício Teixeira, entre outros. Esse encontro noturno em um tradicional bar carioca seria um marco da ligação entre os intelectuais modernistas eruditos, oriundos da elite, e os compositores negros populares, provenientes das camadas urbanas subalternas. Assim como o autor de O mistério do samba, o pesquisador André Gardel estudou de forma pontual a relação entre Manuel Bandeira e Sinhô. Em seu humilde cotidiano na Lapa e em Santa Teresa, o poeta pernambucano expressou em crônicas sua admiração pelo sambista de extração popular.

Outro exemplo ainda a ser mencionado seria o notório interesse de Villa-Lobos pelos choros, pelos cordões e pelas cantigas tradicionais escutadas nas noites boêmias do Rio de Janeiro e transfiguradas mais tarde em música clássica à Bach, à Debussy e à Stravinsky. Além de fundar o bloco Sodade do cordão, Villa-Lobos, assíduo frequentador da Mangueira, apresentaria o regente Leopold Stokowski, em visita ao Brasil, no início da década de 1940, a sambistas de morro como Cartola, Zé da Zilda e Zé Espinguela, entre outros.

A tentativa de integração e de fixação desses elementos tidos como próprios da brasilidade junto à chamada cultura nacional vai orientar as atuações de intelectuais como Mário de Andrade e Villa-Lobos após a década de 1920, já sob a égide da Revolução de 30. A via política e institucional, mediada principalmente por Gustavo Capanema e Rodrigo Melo Franco de Andrade no interior do Ministério da Educação ou do Serviço do Patrimônio Artístico Nacional, seria o lugar privilegiado para a edificação do lugar da arte popular na cultura nacional e para a sua apropriação no cerne da ideologia do Estado durante a Era Vargas, tal como foi estudada por Sérgio Miceli. Em seu livro, o sociólogo paulista consagrou a ideia de cooptação dos artistas modernistas ao regime do Estado Novo e analisou os intelectuais brasileiros à luz das teorias de Pierre Bourdieu, teorias essas, por sua vez, a que faz ressalvas Antônio Cândido no próprio prefácio do livro de Miceli, em razão dos esquemas generalizantes que norteiam esta abordagem.

Assim, a despeito da influência da indústria fonográfica e dos meios de comunicação próprios da cultura de massas, como o rádio, que absorviam boa parte da produção desses compositores nos anos de 1930 e 1940, a música popular constituiria em mais um dos elementos articulados pelos modernistas à retórica da perda, de que trata o antropólogo Reginaldo Gonçalves a propósito dos discursos sobre patrimônio cultural no Brasil.

Futebol : fenômeno urbano e estrangeiro

Já o futebol traçou um percurso bem distinto e foi recebido de modo diametralmente oposto pelos intelectuais modernistas no decênio da Semana de Arte Moderna. Se a música popular e o folclore pertenciam à perspectiva salvacionista do projeto do modernismo, o fenômeno futebolístico no Brasil dos anos de 1920 passava muito ao largo das preocupações missionárias daqueles escritores. A intensa presença dos esportes na vida social brasileira chegava a tal ponto que Mário de Andrade, em Macunaíma (1928), obra-prima do modernismo, representava ficcionalmente o futebol como uma das três pragas que assolavam o país. Ao lado do bicho-do-café e da lagarta rosada, o futebol, inventado com raiva por Macunaíma, era uma peste que infestava as cidades e que se alastrava pelos campos do Brasil.

Não surpreende que, em sua rapsódia literária, o preguiçoso herói de Mário de Andrade fosse avesso à prática esportiva. A introdução do foot-ball no Brasil, feita na virada do século XIX para o século XX, dava-se por intermédio de jovens atletas, descendentes de imigrantes europeus ou filhos das elites abastadas brasileiras, que se reuniam nos requintados clubes das grandes cidades. Esses novos personagens do cenário do país, em sua quase totalidade estudantes de direito e de medicina, ligados por conseguinte ao ethos positivista da ciência, traziam não apenas as últimas novidades da Europa, mas, sobretudo, uma mentalidade distinta que preconizava a importância do adestramento, da disciplina e do culto ao corpo.Segundo o historiador Nicolau Sevcenko, em sua obra sobre a irradiante capital da República no início do século XX, as transformações tecnológicas e científicas por que passava o capitalismo europeu desde 1870 tinham efeitos em todos os níveis de representação da sociedade e atingiam o Brasil do início do século XX. A industrialização e a urbanização acarretavam profundas mudanças no ritmo de vida citadina. A formação de contingentes operários, a ampliação das correntes imigratórias europeias e o aumento do fluxo demográfico faziam com que a própria arquitetura das cidades fosse planejada de forma a funcionar como um organismo humano. A mecanização e a velocidade eram os imperativos dos tempos modernos.

O menosprezo ou o repúdio dos escritores modernistas em relação ao futebol ocorria na proporção em que ele vinha no bojo dessas mudanças. O futebol, subproduto de importação, provinha de uma matriz europeia transplantada por uma elite anglófila e francófila, ávida por novidades e exotismos. Sob a égide do nativismo, do primitivismo e do nacionalismo modernista, o futebol constituía mais um fenômeno típico da dependência cultural brasileira e situava-se no mesmo processo de formação homogênea de uma sociedade urbano-industrial. A importação do futebol representava a adoção de mais um artigo de luxo, com sua linguagem integralmente inglesa e seu vestuário britânico desconhecido.Admirado pelas elites do Rio de Janeiro e de São Paulo, o futebol amador dos anos de 1920 proporcionava um certo ócio aristocrático de fruição do tempo e do lazer, tanto para os espectadores quanto para os seus praticantes. Para a burguesia carioca e paulistana, a prática esportiva trazia de forma subjacente os valores positivos da competição, da iniciativa, da igualdade de direitos e do aperfeiçoamento individual.

Nesse sentido, é possível compreender o fato de o futebol passar alheio ao crivo e ao interesse mais estrito do modernismo ao longo dos anos de 1920. Encontram-se, contudo, aqui e ali, em um poema ou em um conto, indícios dessa presença que se torna a cada ano mais marcante. Mário de Andrade, sempre atento aos fatos do cotidiano, já em sua Paulicéia desvairada (1922) refere-se a um domingo em que o futebol mobiliza a cidade :

“Hoje quem joga ?…
O PaulistanoPara o Jardim América das rosas e dos pontapés !
Friedenreich fez goal ! Corner ! Que juiz !
Gostar de Bianco ? Adoro. Qual Bartô…
E o meu xará maravilhoso !…
– Futilidade, civilização…” 2

Embora existente no dia a dia do habitante de São Paulo, o futebol para Mário de Andrade significava ainda mais uma moda fútil entre as inúmeras que aportavam da realidade européia. O poeta-cronista capta com sensibilidade a empolgação dos que acorrem para assistir a uma partida, mas não deixa de realçar o traço elitista do esporte, eivado de expressões estrangeiras e praticado com violência em um clube tradicional da cidade.

A referência a Arthur Friedenreich é significativa, pois se trata do primeiro ídolo nacional do futebol brasileiro nos anos de 1910 e 1920, que descendia, de maneira sugestiva, de um imigrante alemão e de uma lavadeira negra. Conforme indica ainda Nicolau Sevcenko, Arthur Friedenreich e Edu Chaves, sendo este um ás da aviação, eram os dois grandes ídolos esportivos da cidade de São Paulo. Friedenreich, conhecido como El Tigre, seria alvo de interesse no início da década de 1930 de um outro escritor modernista, Menotti del Picchia. O autor de Juca mulato escreveu o roteiro do filme Campeão de futebol, em que homenageia o craque da época, ao lado de Feitiço, entre outros jogadores.

O futebol também não passaria imune à pena de Oswald de Andrade. Nas peripécias de suas Memórias sentimentais de João Miramar (1924), Oswald de Andrade enxerta o poema Bungalow das rosas e dos pontapés, que se assemelha aos versos anteriores de Mário de Andrade :

“Bondes gols
Aleguais
Noctâmbulos de matches campeões
E poeira
Com vesperais
Desenvoltas tennis girls
No Paulistano
Paso doble.” 3

Oswald de Andrade registra com seus versos livres, em forma de instantâneos fotográficos, a mesma presença do futebol na cidade moderna de São Paulo. Ao lado dos bondes, elemento simbólico do progresso, os gols integram-se a esse novo tempo de agitação e frenesi que contagia as grandes metrópoles. O futebol figura assim como um aspecto do cosmopolitismo que ajusta a vida paulistana aos novos espetáculos das cidades européias. Anos mais tarde, em artigo escrito para o Estado de São Paulo, Oswald de Andrade voltaria a se referir ao futebol, mas agora como um fenômeno da modernidade de fundamento religioso, ao lado dos festivais de cinema e da política.

Em 1927, Antônio de Alcântara Machado publica o conto Corinthians (2) VS Palestra (1). Nesse conto, o futebol não aparece da mesma maneira que em Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Ele não é apenas mais um motivo temático que se impõe pela sua inserção no cotidiano da cidade. O jogo ocupa o centro da história e a sua linguagem se instila na estrutura do texto. Alcântara Machado narra a partida fisgando os movimentos, as inflexões e as nuances de uma partida de futebol. O escritor paulista frisa a oralidade própria do jogo, as interjeições características dos espectadores, as circunvoluções e os deslocamentos dos jogadores em torno da bola. Com esta criativa crônica em forma de conto, o autor realiza a partir do futebol as experiências lingüísticas que tanto fascinavam os modernistas da década de 1920.

A invenção das Copas do Mundo : o futebol como espelho da nação

O decênio de 1930 inaugura uma nova etapa na história do futebol e, por conseguinte, na sua relação com os modernistas, já na segunda fase desse movimento. Se, na década anterior, o futebol é apreciado em razão de seu apelo como fenômeno do cotidiano urbano e como meio de experimentação estilística, nos anos de 1930 a questão da representatividade nacional passa a ser o eixo de preocupação dos modernistas. Isso se verifica também porque naquele decênio os campeonatos de futebol passam a ter dimensão intercontinental e são organizadas as três primeiras copas do mundo : em 1930, no Uruguai ; em 1934, na Itália ; e em 1938, na França. Esta última, a primeira transmitida pelo rádio, mostrava também a importância das transmissões radiofônicas para o processo de popularização do futebol no país, em uma escala nacional cada vez mais abrangente.

Esses torneios vêm-se somar aos campeonatos sul-americanos, às partidas contra uruguaios, argentinos e chilenos, em disputas anuais intituladas Taça Rio Branco, Copa Roca e Copa O’Higgins, respectivamente. Tais jogos são cruciais na formulação da questão da identidade, à medida que ensejam a discussão sobre a imagem do país no exterior e reforçam a idéia de unidade nacional por intermédio dos esportes. Os modernistas, ao longo do decênio, não se mostrariam infensos às repercussões desse debate na vida social brasileira.

As modestas participações do Brasil nas Copas do Mundo de 1930 e 1934 trazem à tona a discussão sobre a composição do selecionado brasileiro, formada então hegemonicamente por jogadores brancos. A experiência vitoriosa de um time com atletas brancos, negros e mestiços na Copa Rio Branco de 1932, quando o Brasil vence os uruguaios, campeões do mundo dois anos antes, contribui para aumentar a pressão pelo profissionalismo. Após 1933, com a profissionalização do futebol e o ingresso oficial de jogadores negros e mulatos, o amadorismo elitista tem de aceder à nova realidade esportiva. O bom desempenho dos jogadores de origem negra abre a brecha para a associação entre a identidade esportiva e o diferencial étnico de constituição do povo brasileiro.

A originalidade étnica divisada no futebol atinge o seu ápice na década de 1930 durante a realização da Copa do Mundo de 1938, na França. Embora o Brasil não houvesse saído vencedor, obtendo o terceiro lugar, a atuação de Leônidas da Silva e de Domingos da Guia estreita o sentimento esportivo de pertencimento e de identificação à pátria. Oswald de Andrade, longe de ser aficionado pelos esportes, embora tenha praticado o futebol, a natação e o boxe em sua juventude, registrou os êxitos futebolísticos do país no estrangeiro em seu telegráfico poema E a Europa curvou-se ante o Brasil. Nele, segundo depoimento do crítico teatral Décio de Almeida Prado, o autor refere-se à excursão do clube amador de São Paulo, o Paulistano, ao continente europeu no ano de 1925, que contou com a participação de Arthur Friedenreich :

“7 a 2
3 a 1
A injustiça de Cette
4 a 0
2 a 1
2 a 0
3 a 1
E meia dúzia na cabeça dos portugueses.” 4

A imagem suscitada pela poesia sugere uma Europa, e os portugueses em especial, prostrada ante a façanha dos brasileiros. Pela via do futebol, o Brasil teria o sortilégio de inverter a tradicional relação de dependência face às potências do Velho Mundo. Os modernistas descortinavam um meio em que a congênita idéia de inferioridade do brasileiro podia ser superada. Mário de Andrade, em crônica de 1939, intitulada Brasil-Argentina, também acentua essa transformação verificada em torno do futebol. O seu processo de apropriação pela identidade da nação chega a adquirir um caráter antropofágico na seguinte passagem : “Dezenas de tribos diferentes se organizando, se entrosando, recebendo mil e uma influências estranhas, mas aceitando dos outros apenas o que era realmente assimilável e imediatamente conformando o elemento importado em fibra nacional.” 5

As sensações descritas por Mário de Andrade ao longo da sua crônica mostravam-se fluidas, sendo capazes de se transferir num átimo do selecionado brasileiro ao selecionado argentino e deste até mesmo aos gregos. O que se depreende de suas divagações em torno do jogo era a capacidade de o futebol encarnar as representações coletivas em torno da nação, depurando-a do “elemento importado”. A visão de Mário de Andrade sobre o futebol incorporava também a antropofagia concebida por Oswald de Andrade, onde se afirmava a capacidade brasileira de deglutição, bem como de assimilação das influências estrangeiras e de sua transformação em expressões genuinamente nacionais. Assim as interpretações modernistas ganhavam contornos próprios, que viam também no futebol uma forma de se chegar às suas concepções sobre a brasilidade.

Gilberto Freyre, regionalismo nordestino e a descoberta do futebol

A década de 1940 pode ser considerada essencial para a fixação dos escritores modernistas no que concerne às suas representações sobre o caráter do futebol brasileiro. Nesse período entram em cena os regionalistas oriundos do Nordeste, como o sociólogo Gilberto Freyre, o romancista José Lins do Rego, a romancista Rachel de Queiroz, o poeta Jorge de Lima e o crítico Olívio Montenegro, a maioria deles já radicados no Rio de Janeiro e reunidos em torno da Livraria José Olympio. As observações sobre a Copa do Mundo de 1938 proporcionaram ao autor de Casa-Grande & senzala a identificação de um estilo próprio brasileiro de se jogar futebol.

Em notas ao seu livro Sociologia (1943), Gilberto Freyre contrapõe o futebol-arte brasileiro ao futebol-científico europeu. Os apontamentos de Gilberto Freyre nas notas deste livro seriam, mais tarde, aperfeiçoados em seu prefácio ao livro clássico de Mário Filho, O negro no futebol brasileiro (1947). A visão de Gilberto Freyre sobre o futebol seria desenvolvida décadas mais tarde por alguns autores. Dentre aqueles que se inspiram em uma perspectiva do futebol próxima a Gilberto Freyre, salientamos o jurista paraibano João Lyra Filho ; o ensaísta pernambucano Pessoa de Morais ; e o antropólogo carioca Roberto DaMatta. Ao amoldar o esporte bretão ao jeito típico de jogar do mulato, o brasileiro privilegiou a qualidade individual em detrimento da organização coletiva. A diferença baseada na habilidade e na surpresa seria a chave gilbertiana para a explicação do sucesso do Brasil nas partidas internacionais.

Gilberto Freyre e José Lins do Rego vão ser dois grandes nomes da intelectualidade desse período a salientar o tema do futebol na cultura brasileira. Para isso, os regionalistas nordestinos valem-se da leitura capital da obra do jornalista Mário Filho. Este – promotor, militante e ideólogo dos esportes no Brasil – publica com regularidade seus livros ao longo da década de 1940 : Copa Rio Branco 32 (1943), Histórias do Flamengo (1945), O negro no futebol brasileiro (1947) e Romance do football (1949). Neles o jornalista ambiciona recontar a história do futebol brasileiro, jungindo suas lembranças pessoais a uma pesquisa inovadora, baseada em fontes orais, com antigos jogadores.

A ambivalência entre a literatura oral e a história, entre o ficcional e o factual, entre o mito e a ciência tem lhe valido uma série de críticas por parte de cientistas sociais nos últimos anos. Segundo o pesquisador Antônio J. Soares, Mário Filho produziu uma visão edulcorada da trajetória do futebol no Brasil, num tipo de narrativa que se assemelha à forma do conto folclórico dissecado por Vladimir Propp e que, poderíamos também acrescentar, remete à imagem do narrador tradicional e do contador de histórias sugerido por Walter Benjamin.

O ponto, entretanto, que nos interessa desenvolver aqui é o de que a obra de Mário Filho na década de 1940 instiga as interpretações modernistas à identificação de uma brasilidade no universo futebolístico. Em sua alentada apreciação crítica ao à época recém-lançado livro de Mário Filho, O romance do football, José Lins do Rego dedica-se quase que tão-somente a frisar os dotes de narrador e as qualidades estilísticas – com nuances de técnica cinematográfica – do jornalista pernambucano. Mário Filho era assim tanto um narrador tradicional, pelo conteúdo, quanto um narrador moderno, pela forma, que transpassava os limites do realismo e do naturalismo e aproximava a linguagem da literatura à linguagem do cinema, conforme desde a década de 1930 já faziam alguns dos melhores romancistas norte-americanos, como John dos Passos, Ernest Hemingway e John Steinbeck :

“Outro livro de Mário Filho que tomou para substância e conteúdo humano o football. É que arrancou dessa prática esportiva a sua mais romanesca particularidade. Mário Filho é um homem que tem o dom da narração, de contar o que sabe e o que imagina, como rio que corre para o mar. Os fatos, os incidentes, os choques, as alegrias e as dores dos seus personagens se apresentam ao leitor, como um conto ou história de Trancoso, no mais simples e mais patético narrar. Se é preciso carregar nas cores, para que a figura surja, no seu melhor pitoresco, o escritor Mário Filho não recorre aos retratos naturalistas, onde até os botões do casaco estejam no seu lugar. Nada. O escritor adota a técnica cinematográfica da câmara, e nos põe em contato com as suas personagens, no movimento da vida. Neste sentido, a história de Jaguaré é uma obra-prima. O herói burlesco, o palhaço das exibições, de fleuma e acrobacia, o homem que brincava com os nervos das multidões, que fizera do football uma originalidade de circo, corre no filme de Mário, desde os dias de malandragem, com o gorro de marinheiro na frente da cabeça e a camisa por fora das calças, até os dias gloriosos da França ou das vitórias espetaculares do Vasco, à morte a pauladas, como se fosse um cachorro, danado, numa cidade do interior de São Paulo.” 6.”

Nesse sentido, os prefácios de José Lins do Rego e Gilberto Freyre servem como chancela intelectual às obras de Mário Filho. O romancista paraibano e o sociólogo pernambucano dão respaldo às qualidades e aos dotes literários do jornalista, ao mesmo tempo em que se abeberam dos aspectos considerados mais relevantes dessa tentativa serial de escrever uma historiografia quase romanceada do futebol brasileiro. Com base em Mário Filho, José Lins do Rego e Gilberto Freyre viam dois fenômenos originais surgidos no seio do futebol brasileiro : a vigência do legado étnico negro e a incorporação da música na forma de se jogar o futebol.

Ante a rigidez corporal do europeu, o negro brasileiro havia introduzido o meneio dos corpos. Este, por sua vez, não seria uma criação do futebol. A agilidade física descendia diretamente das manifestações da música popular e do folclore, sejam os requebros de quadril originários do carnaval, sejam os passos sinuosos advindos do samba, seja a ginga de esquiva proveniente da capoeira. Destarte, a legitimidade do futebol na cultura brasileira se amparava em um elemento já consolidado na imagem da identidade nacional. A música outorgava ao futebol aquilo que os intelectuais modernistas tinham detectado nela nos anos de 1920 : os critérios e as fontes da brasilidade.

A ligação entre a música e os esportes, entretanto, não era um fato isolado e restrito ao Brasil. Semelhante processo se verificava também em vários países da América Latina. O antropólogo argentino Eduardo P. Archetti, em livro recente, mostra que um processo análogo de nacionalização dos esportes estrangeiros pela identificação à via musical sucedeu em países latino-americanos. Em Cuba, o baseball, trasladado dos Estados Unidos, foi incorporado ao discurso da nacionalidade pela sua adequação à música típica cubana, a salsa. Na Argentina, a identidade nacional atrelada ao futebol passou pela sua associação ao tango.Mas já Gilberto Freyre, em uma de suas conferências proferidas nos Estados Unidos em 1944, reunidas em livro sob o título geral de Interpretação do Brasil, procurava endossar a sua tese da similaridade entre a forma de se dançar e a forma de se jogar futebol brasileiro no âmbito não só nacional, como latino-americano, recorrendo a escritores estrangeiros :

“Depois que publiquei minhas primeiras notas sobre esses dois assuntos – as maneiras regionais de dançar e de jogar futebol, o futebol ainda como uma dança com alguma coisa de africano – li excelente página de Waldo Frank em que ele acha que o tango é uma ‘dança-música escultural’ ; e ao mesmo tempo diz que, observando um grupo de brasileiros a jogar futebol, notou que jogavam procurando levar a bola para o gol como se executassem ‘a linha melódica de um samba’. Reproduz quase a mesma observação por mim feita em artigo escrito em 1938, que estou certo nunca foi lido por Waldo Frank, assim como outro que publiquei em 1940 sobre as diversas maneiras de dançarem os brasileiros das várias áreas – da Bahia à área misionera do Rio Grande – as danças de Carnaval.” 7

Como parte de um processo mais amplo que se dava em vários países, é possível perceber de que maneira o futebol se aclimatava no Brasil a partir do discurso intelectual e do seu representante principal já consolidado na música brasileira : o samba. Nesse sentido, antes mesmo da formulação dos regionalistas nordestinos sobre a brasilidade esportiva, Mário de Andrade, na referida crônica de 1939, escrita no Rio de Janeiro, já abordava o futebol à luz das imagens musicais. Mário de Andrade mencionava a elasticidade, as rasteiras sutis, os jeitos sambísticos de enganar, os volteios rapidíssimos e o bailado mirífico do futebol, invocando a figura de Dionísio, deus grego da embriaguez, tal como faria depois Gilberto Freyre.

Tais visões acabavam por encontrar ressonância nos próprios jogadores. Em um depoimento de Domingos da Guia, que chega a se referir à tradicional idéia de malandragem, as relações entre o futebol e a música são assim estabelecidas : “Meu irmão mais velho me dizia : malandro é o gato, que sempre cai de pé… tu não é bom de baile ? Eu era bom de baile mesmo e isso me ajudou em campo… gingava muito… sabe que eu me lembrava deles… o tal do drible curto eu inventei imitando o miudinho, aquele tipo de samba”.

Conclusão

Como foi aludido no início deste ensaio, o antropólogo Hermano Viana teve como ponto de partida em seu livro O mistério do samba um encontro noturno entre intelectuais e compositores populares, ocorrido na década de 1920. Esta reunião aproximou os escritores oriundos do modernismo e os mais expressivos sambistas do Rio de Janeiro da época. Tal acontecimento representaria um marco da aproximação idealizada entre as elites eruditas letradas e os compositores populares negros, egressos das camadas urbanas subalternas.

De maneira análoga, o principal intento deste artigo foi apontar uma ligação, que costuma passar despercebida, entre intelectuais regionalistas nordestinos, como Gilberto Freyre e José Lins do Rego, contemporâneos do movimento modernista, com jogadores de futebol de origem negra, como Leônidas da Silva, Domingos da Guia e Fausto dos Santos. Se no caso de Freyre esta aproximação ficou restrita ao âmbito do registro escrito – com referências à temática esportiva e à suposta ascensão social do ‘mulato’ através dos esportes em vários de seus livros, de Sobrados e mocambos (1936) a Ordem e progresso (1958) – em Lins do Rego esse contato foi estabelecido diretamente com jogadores oriundos das classes populares.

A sua proximidade do autor de Menino de engenho com Mário Filho, neste sentido, foi extremamente fecunda. Ela permitiu a José Lins uma vivência em estádios, em cafés (a Confeitaria Colombo) e em crônicas diárias no Jornal dos Sports. Nestas, era possível uma comunicação mais direta com o torcedor, que nas décadas de 1940 e 50 era considerado uma metonímia do que se chamava de uma maneira genérica “povo”, ou simples metáfora da vida do homem comum brasileiro.

Nosso artigo procurou enfocar tais “encontros” à luz das questões centrais do modernismo brasileiros. Através de excertos das obras de seus epígonos, procurou-se demonstrar até que ponto, embora sendo um fenômeno esportivo urbano, propalado pelos meios de comunicação típicos da cultura de massa das décadas de 1930 e 1940, como o rádio e o jornal, o futebol também ocupava o terreno da cultura popular. Segundo as lentes modernistas, esta passava por um filtro que atribuía às heranças negras e ameríndias uma preponderância e um diferencial positivo no reconhecimento do que era autêntico em âmbito cultural.

Se até o início da década de 1920, o futebol sofria a resistência de artistas e homens de letras, que viam nele uma manifestação urbana com origem inglesa e, portanto, estrangeira ou inautêntica, a disputa das Copas do Mundo a Seleção Brasileira vai pouco a pouco galvanizar neste esporte as vicissitudes da identidade nacional. Uma equipe de futebol passa pouco a pouco a condensar os elementos expressivos da nação e do povo brasileiros, ocupando um destacado papel na identificação do Estado no exterior.

Assim, materializados em histórias anedóticas no livro de Mário Filho, O negro no futebol brasileiro (1947), estilizados no prefácio de Gilberto Freyre, tais encontros combinavam o imaginário futebolístico com aspectos caros ao ideário modernista pós-1930. A construção de símbolos nacionais tornava-se possível a partir da música popular e do folclore. Naquele momento, através da consolidação intelectual de uma brasilidade esportiva, o futebol também facultava tal constructo. Este era agora viabilizado pela criação de expressões associadas à mestiçagem e à criatividade artística, típicas do nacionalismo cultural que então campeava.

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Filmografia

ARRUDA, Genésio. Campeão de futebol (1931)

Bibliografia

1 ANDRADE, M. de. De Paulicéia desvairada a Café (Poesias completas). Círculo do Livro : São Paulo, s.d., p. 47.

2 ANDRADE, O. de. Memórias sentimentais de João Miramar. Globo : São Paulo, 1991, p. 88.

3 ANDRADE, O. de. “Postes da Light”. In : Poesias reunidas. Difel : São Paulo, 1966, p. 114.

4 ANDRADE, M. de. “Brasil-Argentina”. In : Os filhos da Candinha. Martins : São Paulo, p. 1963, p. 81.

5 REGO, J. L. do. “Romance do football”. In : Jornal dos Sports. Rio, 07 de janeiro de 1950, p. 5.

6 FREYRE, G. Interpretação do Brasil. Companhia das Letras : São Paulo, 2001, p. 184.

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